(Resposta ao poema "Amor e Medo", de Casimiro de Abreu)
Se eu te chamo coração de gelo
É que me foges com profundo empenho
Porque machuca minha alma ver-te
Triste e ranzinza, a franzir o cenho.
E no luzir dessas estrelas puras
É revelado, enfim, o vil segredo
Se eu te persigo é porque tu te afastas
Se tu te afastas é porque tens medo.
Quando na valsa estou colada a tí
Meu coração tenta sair do peito
E a rodar, tão animada e louca
Tu me afastas, meio que sem jeito.
Se abrasado dizes ser por mim
Por quê te negas ter o meu carinho?
Se bela eu sou, e moço és, então
O teu destino é cruzar meu caminho.
Mas se tirares do jardim a planta
Privar d'Orvalho que provém do céu
A pobre muda logo já definha
Sem as carícias do rei-sol, ao léu.
Teu dedo impuro para mim é santo
E é maldita a inocência minha
Pois se não pode ser sorvida em beijos
Mais sofrerá se for brincar sozinha.
Ai! se parasses com teus medos bobos
E me beijasses como nunca mais
No teu abraço eu me poria louca
E a minha coroa voaria em paz.
Então te chamo coração de gelo
E sofro muito por amar tão cedo
Se eu te persigo é porque tu te afastas
Se tu te afastas é porque tens medo.
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