sábado, 17 de março de 2012

Certeza

(Paráfrase do poema "Motivo", de Cecília Meireles.)

Eu amo porque a vida é plena
E a minha alma é verdejante
Não sou romântica ou ingênua
Sou amante.
Mulher de alma aguerrida,
Cheia de gozo e alegria.
Assim eu passo a vida
Noite e dia.
Se duras lágrimas derramo,
Se eu me irrito ou se eu me alegro.
- Não sei, não sei. Não sei se engano
Ou se me entrego.
Sei que amo. E o amor é agudo.
Tem fogo eterno a alma abrasada.
E sei que um dia serei tudo:
- Até amada.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Chalaça

(paródia de "Via Láctea", de Olavo Bilac)

"Ora (direis) ouvir pagode! Certo
Escutas Belo!" Quis admitir
Que, para ouví-lo, mesmo nesse aperto
Gasto dinheiro, logo irei ruir.

Pagodeamos toda a noite, a rir
Um cavaquinho e o soar de um canto
Ressoam. E o pandeiro vou brandir
como uma flâmula num dia santo.

Direis agora: "vais no Exalta, amigo?
Cerveja grátis, e sem ladainha!
Eu tenho ingressos, então vem comigo".

E eu vos direi: "recuso-me a tê-los!
Me negarei - coisa tão vil, mesquinha!
Pois só de longe poderia eu vê-los!"

domingo, 11 de março de 2012

Paixão e Obsessão

(Resposta ao poema "Amor e Medo", de Casimiro de Abreu)

Se eu te chamo coração de gelo
É que me foges com profundo empenho
Porque machuca minha alma ver-te
Triste e ranzinza, a franzir o cenho.

E no luzir dessas estrelas puras
É revelado, enfim, o vil segredo
Se eu te persigo é porque tu te afastas
Se tu te afastas é porque tens medo.

Quando na valsa estou colada a tí
Meu coração tenta sair do peito
E a rodar, tão animada e louca
Tu me afastas, meio que sem jeito.

Se abrasado dizes ser por mim
Por quê te negas ter o meu carinho?
Se bela eu sou, e moço és, então
O teu destino é cruzar meu caminho.

Mas se tirares do jardim a planta
Privar d'Orvalho que provém do céu
A pobre muda logo já definha
Sem as carícias do rei-sol, ao léu.

Teu dedo impuro para mim é santo
E é maldita a inocência minha
Pois se não pode ser sorvida em beijos
Mais sofrerá se for brincar sozinha.

Ai! se parasses com teus medos bobos
E me beijasses como nunca mais
No teu abraço eu me poria louca
E a minha coroa voaria em paz.

Então te chamo coração de gelo
E sofro muito por amar tão cedo
Se eu te persigo é porque tu te afastas
Se tu te afastas é porque tens medo.

Persuasão

(Paráfrase de "Encarnação", de Cruz e Souza)

Amais, então amais esses meus beijos,
Amais, então me amais sem mais receio,
Essas paixões, tão trêmulas de anseio,
Que só por vós já sofrem tais desejos...

Fogo, que vós queimais com tais gracejos,
Em seu luzir, a lua mostra os meios,
Grandes, belos, impávidos os seios,
Ais de prazer, famintos os ensejos...

Sejam reais os sonhos mais impuros,
Onde gentis, ornados, belos muros
Beijam a bruma densa e alumiada.

Beijos, carícias ternas e uma ânsia
E longas pernas formam alternância
E o coração palpita sem parada!